Madrugada De Alfama

Amalia Rodrigues · Art Of Amalia Rodrigues 2 [2005]

Mora num beco de Alfama

E chamam-lhe a madrugada

Mas ela de tão estouvada

Nem sabe como se chama.

Mora numa água-furtada,

Que é mais alta de Alfama

A que o sol primeiro inflama

Quando acorda a madrugada.



Nem mesmo na Madragoa

Ninguém compete com ela,

Que do alto da janela

Tão cedo beija Lisboa.

E a sua colcha amarela

Faz inveja à Madragoa:

Madragoa não perdoa

Que madruguem mais do que ela.



Mora num beco de Alfama

E chamam-lhe a madrugada,

São mastros de luz doirada

Os ferros da sua cama.

E a sua colcha amarela

A brilhar sobre Lisboa

É como estátua de proa

Que anuncia a caravela...



David Mourão Ferreira