Primavera

Amalia Rodrigues · Segredo [2000]

Todo o amor que nos prendera

Como de fora de cera

Se quebrava e desfazia.

Ai funesta primavera,

Quem me dera, quem nos dera

Ter morrido nesse dia.



E condenaram-me a tanto,

Viver comigo o meu pranto,

Viver, e viver sem ti,

Vivendo sem no entanto

Eu me esquecer desses encanto

Que nesse dia perdi.



Pão duro da solidão

É somente o que nos dão a comer.

Que importa que o coração

Diga que sim ou que nãoSe continua a viver.



Todo o amor que nos prendera

Se quebrara e desfizera,

Em pavor se convertia.

Ninguém fale em primavera,

Quem me dera, quem nos dera

Ter morrido nesse dia.



David Mourão Ferreira