Vou Dar De Beber à Dor

Amalia Rodrigues · Coimbra [2006]

Vou dar de beber à dor



Foi no domingo passado que passei

À casa onde viveu a Mariquinhas

Mas está tudo tão mudado

Que não vi em nenhum lado

As tais janelas que tinham tabuinhas

Do rés-do-chao ao telhado

Não vi nada nada nada

Que pudesse recordar-me a Mariquinhas

E há um vidro quebrado e isolado

Onde havia as tabuinhas



Entrei e onde era a sala agora está

Á secretária um sujeito que é lingrinhas

E não há colchas com barra

Nem viola nem guitarra

Nem espreitadelas furtivas das vizinhas

O tempo cravou a garra

Na alma daquela casa

Onde às vezes petiscávamos sardinhas

Quando em noites de guitarra e de farra

Estava alegre a Mariquinhas.



As janelas tão garridas que ficavam

Com cortinados de chita às pintinhas

Perderam de todo a graça

Porque é hoje uma vidraça

Com cercadura de lata às voltinhas

E lá p'ra dentro quem passa

Hoje é p'ra ir aos penhores

Entregar ao usurário umas coisinhas

Chegou a esta desgraça toda a graça

Da casa da Mariquinhas.



P'ra terem feito da casa o que fizeram

Melhor fora que a mandassem p'ras alminhas

Pois ser casa de penhor

O que foi viveiro de amor

É ideia que não cabe cá nas minhas

Recordações de calor

E das saudades o gosto

Que vou procurar esquecer numas ginjinhas

Pois dar de beber à dor é o melhor

Já dizia a Mariquinhas.